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— Ah, é você! Pode entrar — disse ela com aquela voz aguda que lembrava amarelo-esverdeado e que sempre o irritava. Nunca o tratava por tu, apesar de ele ser seu genro.
Simulando bom humor e despreocupação encaminhou-se, de passo desembaraçado, para junto da cama branca de ferro esmaltado. A lamparina, presa a um varão, espalhava uma luz débil. Por que éque Teresa tinha a cara tão arroxeada?
— Teresa!
— Não é nada, José. Todas as mulheres passam por isto.
Mas em seguida a cara torceu-se-lhe de dor.
— Dona Marcelina! Dona Marcelina!
Dona Marcelina, a parteira, empurrou-o para o lado.
— O senhor é melhor sair daqui — disse naquele tom próprio das pessoas que se sentem seguras de si quando estão a trabalhar. —Dê um passeio ou vá para casa. Isto ainda demora. Telefone sempre que quiser. E quando voltar basta tocar a campainha do portão.
Viu-se outra vez na saleta sem porta. Imóvel, o homem de bigode à Kaiser contemplava os cravos de papel em cima da mesinha. Taque, taque, taque... sempre taque, taque, taque. Tornava-se insuportável. De facto o melhor era ir dar um passeio.
Uma noite branda, de princípio de Outono. Melancólica e suave a natureza agonizava, ajustava-se à índole do país. A natureza agonizava, mas a morte não se cumpria: uma vez caídas as folhas, começavam a abotoar as camélias, desafiando ventos e chuva, e as laranjas e os limões fulguravam entre a sua folhagem sempre verde. Agonia que não levava à morte.
Solução caridosa, prorrogação perpétua. Não havia ressurreição. Era assim, também, que a Primavera em Portugal não lhe queria parecer uma Primavera a valer, mas antes a continuação mais exuberante do inverno das camélias. Sempre que se aproximava a Primavera não podia deixar de sentir a nostalgia dos dias muito frios em que o assombrava a luta da primeira campânula com a terra ainda coberta de neve, a vitória do frágil rebento sobre a morte. Agora vivia ao calor dum sol mais generoso, conhecia invernos benevolentes, mas os contrastes perdiam os contornos. Desceu a Avenida. A iluminação fraca dos candeeiros não deixava realçar a desproporção agressiva dos edifícios de granito. Os reclamos luminosos, na Praça, de tão pobres amorteciam este centro em vez de o animarem.
«Diáaaaario de Lisboa! Olh’o Popular! Diáaario!». Tinha, portanto, chegado o rápido. Comprou um jornal e entrou num café.
ILSE LOSA, SOB CÉUS ESTRANHOS, Edições Afrontamento, 1992, pp. 8, 9.
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