Sábado, 22 de Abril de 2006
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  Ah, é você! Pode entrar — disse ela com aquela voz aguda que lembrava amarelo-esverdeado e que sempre o irritava. Nunca o tratava por tu, apesar de ele ser seu genro.

Simulando bom humor e despreocupação encaminhou-se, de passo desembaraçado, para junto da cama branca de ferro esmaltado. A lamparina, presa a um varão, espalhava uma luz débil. Por que éque Teresa tinha a cara tão arroxeada?

— Teresa!

— Não é nada, José. Todas as mulheres passam por isto.

Mas em seguida a cara torceu-se-lhe de dor.

  Dona Marcelina! Dona Marcelina!

Dona Marcelina, a parteira, empurrou-o para o lado.

  O senhor é melhor sair daqui — disse naquele tom próprio das pessoas que se sentem seguras de si quando estão a trabalhar. —Dê um passeio ou vá para casa. Isto ainda demora. Telefone sempre que quiser. E quando voltar basta tocar a campainha do portão.

Viu-se outra vez na saleta sem porta. Imóvel, o homem de bigode à Kaiser contemplava os cravos de papel em cima da mesinha. Taque, taque, taque... sempre taque, taque, taque. Tornava-se insuportável. De facto o melhor era ir dar um passeio.

Uma noite branda, de princípio de Outono. Melancólica e suave a natureza agonizava, ajustava-se à índole do país. A natureza agonizava, mas a morte não se cumpria: uma vez caídas as folhas, começavam a abotoar as camélias, desafiando ventos e chuva, e as laranjas e os limões fulguravam entre a sua folhagem sempre verde. Agonia que não levava à morte.

Solução caridosa, prorrogação perpétua. Não havia ressurreição. Era assim, também, que a Pri­mavera em Portugal não lhe queria parecer uma Primavera a valer, mas antes a continuação mais exuberante do inverno das camélias. Sempre que se aproximava a Primavera não podia deixar de sentir a nostalgia dos dias muito frios em que o assombrava a luta da primeira campânula com a terra ainda coberta de neve, a vitória do frágil rebento sobre a morte. Agora vivia ao calor dum sol mais generoso, conhecia invernos benevolentes, mas os contrastes perdiam os contornos. Desceu a Avenida. A iluminação fraca dos candeeiros não deixava realçar a desproporção agressiva dos edifícios de granito. Os reclamos luminosos, na Praça, de tão pobres amorteciam este centro em vez de o animarem.

 «Diáaaaario de Lisboa! Olh’o Popular! Diáaario!». Tinha, portanto, chegado o rápido. Comprou um jornal e entrou num café.

 

ILSE LOSA, SOB CÉUS ESTRANHOS, Edições Afrontamento, 1992, pp. 8, 9.

 

publicado por ciloca às 19:14
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6 comentários:
De Cöllyßry a 22 de Abril de 2006 às 21:54
Oi...Como estás?...Bom texto
Bom domingo
Doces olhares
Fer/Collybry
De Cöllyßry a 22 de Abril de 2006 às 22:05
Querida amiga o seiva já não existe...
sim o olharindiscreto,faz-me o carinho de retificar o link o que agradeço o teres no teu blog... e visita o...meu novo...
http://vitral.blogs.sapo.pt/
terei muito gosto em te receber...
Doces olhsres
Bom domingo
Bjocas ternas
Fer/Collybry
De soaresesilva a 23 de Abril de 2006 às 17:36
Texto impressionante!
De Andesman a 23 de Abril de 2006 às 22:55
Estive hoje junto ao Estádio eng. Rui Alves na Choupana mas não entrei. O Nacional da Madeira, tem o hábito mau de quando o Benfica lá vai jogar, estabelecer um preço único para os bilhetes: 40 euros. O estádio tem poucas condições de conforto e este preço é no mínimo exorbitante. Ah, mas eu "torço" sempre e em qualquer lugar pelo BENFICA. Jinhos para ti
De lique a 24 de Abril de 2006 às 11:58
Um belo texto de uma senhora escritora. Vale sempre a pena ler. :)
Beijinhos
De Praia da Claridade a 24 de Abril de 2006 às 16:56
" — Ah, é você! Pode entrar — "
Gostei deste texto !...
Com um "truque" que não sei se este comentário vai seguir... mas estou sempre presente.
Não quero que os(as) Amigos(os) de esqueçam de mim, porque eu não me esqueço deles !...
O que acontece é que tenho um problema no Internet Explorer que não me deixa, ou é muito difícil, entrar nos Blogs...
Por isso as minhas desculpas ...
Mas continuo a fazer um post diário !...
O meu blog não vai "morrer" !....
Beijos.

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