Terça-feira, 14 de Novembro de 2006
Um Bairro Azul
 



Um bairro azul de miséria num enclave nas Olaias



Marina Almeida
Gonçalo Santos (foto)
 
A pessoa aqui vai à terra e quando volta tem a casa ocupada ou vandalizada, se vai um velho para o hospital doente fica logo alguém à porta à espera que ele morra para ocupar a casa." Zélia Mascarenhas, 65 anos, mora há 23 no Bairro Portugal Novo, nas Olaias. Resume numa frase a tensão diária que ali se vive - nas traseiras da esquadra da PSP, do Hotel Altis Park, paredes meias com a encosta das Olaias, em que o preço de algumas casas pode chegar aos 500 mil euros.

Nas ruas o tom das conversas baixa para falar da outra parte do problema: os indivíduos de etnia cigana que há mais ou menos cinco anos descobriram as fragilidades daquele bairro que hoje é "terra de ninguém". "É impossível viver com eles" diz outra moradora que não se quis identificar. Conta que eles "ameaçam os velhos que estão cá desde o início, há mais de 20 anos, querem ficar com as casas."

O bairro foi construído em terrenos da Câmara de Lisboa há 24 anos por uma cooperativa que faliu passados sete anos. Desde então, ninguém paga renda e impera a lei do mais forte. José Franco, eleito pelo Bloco de Esquerda para a assembleia de freguesia pelo Alto do Pina, explica que, quando a cooperativa faliu, "os prédios não tinham sido bem acabados e foi uma degradação contínua". Hoje, "as pessoas do antigamente não se entendem com outras que vivem de forma algo oportunista", diz, corroborando as histórias de ameaças e ocupações selvagens de habitações, nas "barbas da PSP", sem que a autoridade intervenha.

Maria Cândida está numa das entradas do bairro que teima em ser conhecido como Portugal Novo. Apesar de estar sujo de lixo e de tempo, da degradação dos prédios que já foram azul-bebé, da lotação mais-que--esgotada da maioria daquelas casas. Cândida aponta outras fragilidades do "bairro azul": as canalizações que não funcionam, as inundações frequentes em dias de chuva, a falta de espaços para novos e velhos. Garante que apesar da miséria há quem venda ali casas "por seis ou sete mil contos, tudo sem papéis".

O bairro passa agora mais despercebido por quem sai da rotunda das Olaias em direcção ao Areeiro. O edifício onde a câmara vai instalar os serviços sociais está pronto. "Estão a tapar a miséria", diz.

Lá atrás cai a noite e, na rua, um grupo acende o grelhador. Mais tarde vai cheirar a frango assado. Há alguém que diz: "Se me saísse o euromilhões quem comprava isto era eu."
publicado por ciloca às 21:07
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4 comentários:
De * * Grilinha * * a 14 de Novembro de 2006 às 23:32
A esquadra fica mesmo á entrada da rua no rés-do-chão de um dos prédios que falas.
O centro Comercial das Olaias está vazio de lojas e de clientes.
Olaias - Quem te viu e quem te vê.
De José S. a 15 de Novembro de 2006 às 01:38
São as misérias deste país novo-rico, que gosta mais de futebol que das pessoas, enquanto os "peelings" da Lili Caneças são tema de abertura das notícias, em "horário nobre".
Afinal em que país vive o poder, a autoridade e a solidariedade?
De Mikas a 15 de Novembro de 2006 às 12:24
Quem tem uma casa em condições n sabe dar o valor, é mto triste.
De padeiradealjubarrota a 17 de Novembro de 2006 às 18:53
É tudo verdade. E também é verdade, aqueles que ali vendem as casas, sem papéis, por conta própria, possuindo outras casas de habitação! Um vergonha num bairro de tiroteio.

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