Terça-feira, 16 de Maio de 2006
O ATEU
  

O sol retira-se esplêndido por entre algumas nuvens rubras, raios singram para o alto como torres de uma catedral, retos como que feitos por um esquadro invisível. Surge Vênus e também ainda opaca, a Lua, prenunciando uma noite repleta de fluidos mágicos.Do alto de um dos milhares de blocos de concreto da cidade, na sacada do seu apartamento, Alceu alheio ao espetáculo celeste, observa os transeuntes apressados, rumo a seus lares.
Uma lágrima desliza em sua face e cai no vácuo.
Apenas uma palavra retumba em sua mente perturbada: Por que? Por que? Por que?
Trêmulo, retira do bolso da camisa um papel todo amassado que minutos antes jogara no lixo e relê pela décima vez o seu conteúdo: "Meu filho, estou muito preocupada contigo, faz três meses que não vens visitar-me, nem dás um telefonema! Tu bem sabes o meu problema nas pernas que me impede de ir até ti.
Desde a morte de tua esposa, modificastes a maneira de ser e agora vives encarcerado nesse apartamento. Alceu, lembra- te da tua infância, lembra-te de quando rezávamos juntos! Não recalcitres, Deus olha por ti. Tenha fé meu filho, Ele não nos dá provas maiores do que podemos suportar. Eu te amo tanto, será que não mereço uma migalha de tua estima? Mariana está no paraíso, pois era um anjo encarnado na Terra. Nós bem o sabemos: Quanta ternura e bondade naquele coração que tão cedo cessou o labor, pois Deus dela precisava para desígnios maiores.
Acredita em tua mãe, reze e te sentirás melhor...
Alceu, num impulso de revolta joga o papel fora e entre soluços balbucia: Deus... bem sabes minha mãe, nunca acreditei na sua existência. Pior! Se existe, como pôde levar minha Mariana tão cedo?!
Quantos planos tínhamos, quantas alegrias e lutas pela frente... Vejo os mendigos lá embaixo, os pivetes cheirando cola e roubando. Vejo toda essa hipocrisia no seio de instituições de caridade, que crescem à custa do dinheiro desse povo tão sofrido! Deus, se existes, o que significamos para Você. Cobaias? Marionetes de seus caprichos?
Como um raio a idéia de suicídio atravessa sua mente e ele olha para a calçada trinta metros abaixo de si.. A carta da mãe ainda plana no ar e suavemente deposita-se ao lado de um poste. O semblante sereno de Dna. Isaura com seus cabelos algodoados, interpõem-se à idéia nefasta e Alceu joga-se exausto sobre o sofá da sala.
"Mariana, como posso continuar sem o seu sorriso, sua alegria de viver, suas palavras sempre sensatas, direcionadas para o bem de todos? Que mundo é esse que crê num Deus implacável?!"
No dia seguinte Alceu acorda com as primeiras carícias do astro-rei. Ele se levanta do sofá e mecanicamente liga a televisão. No jornal matutino mais uma tragédia. O repórter comenta o assassinato de um garotinho de sete anos, ocorrido um mês atrás após ser seqüestrado e o seu pai pago o resgate.
Surpreendentemente, o pai da vítima, chorando, desabafa nesses termos:"- Eu perdôo o seqüestrador, ele é tão desgraçado quanto eu, seu sofrimento talvez seja encoberto por sua demência, ou maldade, seja lá o que for, mas que posso eu fazer agora? Apenas chorar e rezar para que ele se arrependa. Ódio? Eu senti no início, mas eu preciso ser forte e dar o exemplo para o meu pequeno, que com certeza, encontra-se agora ao lado de Deus!
Alceu sorri sarcasticamente:
- Deus! Esse pobre homem perdeu a razão!
Alceu toma apenas uma xícara de café bem forte e dirigi-se ao cemitério, onde jazem os restos mortais de sua amada.
No caminho, recebe quatro panfletos:
O primeiro de uma instituição católica, que ele joga na cara do rapaz que o oferecera. O segundo, é de uma instituição espírita, do qual logo ele se livra. O terceiro, de uma instituição evangélica, que tem o mesmo destino dos outros. Cada vez mais nervoso, ele recusa mais três papéis oferecidos.
Nunca vi coisa igual, logo terão redes para capturar-nos!
Mas o quarto panfleto, não seria oferecido por mãos humanas: ao chegar em frente ao jazigo da esposa, ele se depara com um papel de uma congregação Hare-krishna. Mais controlado, pega a folha e joga-a num latão de lixo próximo.
Alceu passa horas ali entre os túmulos, relembrando o passado recente.
No dia seguinte, o porteiro bate à sua porta e entrega-lhe um pequeno pacote. Abrindo-o, o rapaz se depara com uma Bíblia.
O que! deve ter sido minha mãe, nem há remetente.
Alguns minutos depois, o porteiro reaparece e sem graça, desculpa-se pelo engano. O pacote na verdade, deveria ser entregue para uma senhora que morava no andar de cima.
O jovem viúvo relembra as palavras da mãe: "Deus olha por ti"
Naquela mesma tarde ele descia no elevador, quando entrou um garoto de uns nove anos que, na pureza da idade lhe perguntou de sopetão:
- Moço, você acredita no papai do céu?
Nesse instante sentimentos contraditórios apossam-se do ateu convicto. O que dizer para uma criança?
- Sim, sim, acredito.
- Ah, que bom, sabe eu vi na televisão um moço que disse não acreditar, como deve ser triste esse moço, não é?
- Sim, sim, realmente.
À noite, Alceu reflete sobre os últimos acontecimentos. Ele se dirige à sacada e observa o céu: lá está a lua tantas vezes admirada por ele e sua esposa, ao lado do satélite, a constelação de Orion e suas três estrelas unidas como que num bailado sideral. Alceu sente uma onda de paz percorrer todo o seu corpo. Há meses, não conseguia admirar as belezas da natureza.
Lá embaixo, ao lado do mesmo poste onde pousara a carta de sua mãe, um mendigo dorme profundamente.
Deus, por quê? Se governas realmente o mundo, dê-me uma prova, ajuda-me a crer! Como posso fazê-lo com cenas como essa?
De repente, uma van branca, estaciona próxima ao indigente e três pessoas saem com algumas roupas. Uma delas carrega consigo uma marmita. Suavemente acordam o pobre coitado e no silêncio da noite, Alceu escuta o ecoar de agradecimento do mendigo:
Deus os abençoe, Deus os abençoe.
Alceu chora copiosamente.

 

Marcel Alcântara

publicado por ciloca às 21:23
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5 comentários:
De Alvaro Faustino a 17 de Maio de 2006 às 11:20
Texto muito belo e com uma lição de vida muito significante. Mas é por estas e por outras, por todas estas contradições da vida, que ficamos sem saber em quem acreditar. Enquanto uns são abençoados pelos "milagres da vida", outros continuam á espera do seu, muitas vezes uma vida inteira e mesmo assim sem aparecerem. Se contarmos apenas com nós mesmos, respeitando os outros, teremos todas as manhãs os "milagres da vida" ao acordar. O Mundo tem de ser feito de Homens, não em crenças que nos deixam sem tempo para viver o dia a dia. Um abraço.
De Zalinha a 17 de Maio de 2006 às 18:39
Com que então Ateu???Pois olha eu sou a tua...hehehe...é mesmo verdade pelo menos foi o que sempre me disseram,e eu acredito que sim que sou tua...bem mas axo que cada um acredita no que acredita e mais nada,nenhum homem ou mulher é superior ou inferior por acreditar nisto ou naquilo...Deus para uns.Jeova para outros...o que importa é que seja lá o que for,cada um de nós se apoia sempre em algo que acreditamos e isso muitas vezes da-nos força para continuar!!!Beijos para ti minha Deusa e para o resto do ppl.
De lique a 17 de Maio de 2006 às 19:28
A história é bonita mas , sinceramente, só me convence daquilo em que sempre acreditei: o homem tem necessidade de um Deus e foi inventando vários.
Tenho muito respeito por quem acredita e penso que deve ser bem mais feliz do que quem realmente é céptico em relação a estas matérias. Mas que fazer? :)
Beijinhos
De Maria Papoila a 17 de Maio de 2006 às 19:40
História bonita, mas quanto a Deus permanecem as minhas dúvidas que não no valor do lado espiritual da Vida. A vida só por si é um valor sagrado.
Beijo
De soaresesilva a 17 de Maio de 2006 às 21:42
Eu acredito em Deus mas custa-me muito a aceitar o sofrimento, sofrimento que a maior parte das vezes é infligido pelo homem ao seu próprio irmão. Se todos amássemos os outroa como Cristo ensinou, o mundo seria muito melhor.
A história que contas é comovedora, como é comevedora toda a dúvida da pessoa que procura resposta para o mistério da vida, do sofrimento, da morte e , quem sabe, do além eterno.

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